Dia 6 — Colônia del Sacramento em camadas: Rambla, compras, museus e a cidade à noite
O Dia 6 começou em outro ritmo. Em Colônia del Sacramento não havia necessidade de acordar tão cedo como em Montevideo. A cidade é menor, mais tranquila, e o carro podia ficar parado na frente do apartamento sem preocupação. Isso muda completamente a dinâmica do dia. Pequenas diferenças entre cidades que você descobre ao conhecer o Uruguay.
Acordamos por volta das 7h, nos arrumamos e saímos de carro em direção à Rambla, que fica a cerca de um quilômetro do Centro Histórico. A ideia era fazer atividade física ali. Eu queria repetir o ritual de caminhar na areia, como tinha feito em Montevideo, mas logo percebi que a praia ali não tem a mesma textura, não é tão confortável para caminhar. Além disso, eu estava de chinelo, pois queria molhar o pé no Rio da Prata, e meu pai foi com roupa inadequada, achando que seria apenas um passeio curto.

Acabamos fazendo uma caminhada menor, mas sem planejar chegamos até a Plaza de Toros. Foi ali que realmente conhecemos sua dimensão: grande, imponente e bonita. Caminhamos ao redor, fizemos fotos e vídeos, e ao ver a bilheteria, percebemos que a visitação interna abriria às 11h. Decidimos deixar para o dia seguinte e ver com mais calma.




Voltamos então para o apartamento e seguimos nosso ritual: café da manhã tranquilo, organização casa e posts no blog. Depois disso, tomei banho, nos arrumamos e fizemos o almoço em casa.
Dividimos a tarde em dois momentos.
Compras e pequenas missões
Na primeira saída, fomos resolver pendências práticas. Caminhamos pela Calle General Flores, onde eu queria comprar ímãs de geladeira, aqueles que imitam os azulejos portugueses típicos de Colônia. Encontrei exatamente os mesmos modelos de cinco anos atrás, o que me deixou genuinamente feliz, pois um deles havia quebrado. Comprei os ímãs, um copinho para mim e um pin.
Aproveitei para convencer meu pai a comprar uma bomba de chimarrão. Passamos também por uma casa de alfajores, compramos vinhos e depois seguimos para o supermercado para pegar o básico que faltava: ovos, pão e algumas poucas coisas. Voltamos ao apartamento para deixar tudo guardado.

Farol, museus e passeio noturno
Saímos novamente, agora com o objetivo de visitar o Farol de Colônia. A entrada custa 35 pesos por pessoa, mas não conseguimos subir pois meu pai estava de chinelo e, por segurança, não permitem a subida sem um calçado firme, já que a escada é em caracol. No fim, até foi melhor pois este dia estava muito quente naquele horário.
Seguimos então para o Museu Naval de Colônia del Sacramento, localizado próximo ao bastião de San Pedro. O museu abriga um acervo histórico fundamental para compreender a relevância da navegação e das batalhas fluviais no Rio da Prata durante o período colonial. A exposição conta com maquetes detalhadas de caravelas e galeões espanhóis e portugueses, canhões e armamentos navais restaurados, além de instrumentos de navegação antigos, como astrolábios e bússolas. Também há peças recuperadas de naufrágios históricos na região, oferecendo um panorama rico sobre o passado marítimo e a defesa estratégica do porto da cidade.







Compras inesperadas e pequenos prazeres
Durante essa caminhada, percebi que o sapato do meu pai estava incomodando. Desde que saímos do farol, fiquei observando vitrines até que entramos em uma loja de couro. Ele encontrou uma alpargata confortável, compramos e vimos que a loja tinha o selo de tax free (Global Blue) o que gerou restituição de impostos no final da viagem.
Paramos novamente na sorveteria Bortolot, o sorvete uruguayo é realmente excelente. No dia anterior, eu havia pedido doce de leite com maracujá; dessa vez, pedi doce de leite com manga. Meu pai, que havia pedido abacaxi e pediu de pêssego, mas esse último não estava tão bom segundo ele.



Mais adiante, subindo a General Flores, acabei entrando na loja Tranqueira, cheia de produtos em couro e comprei uma pequena carteira/porta-documentos e um porta-óculos. Também fiz o tax free ali.
Voltamos para o apartamento, preparamos a janta e descansamos um pouco.
Colônia à noite
Depois do jantar, saímos de carro para ver o Centro Histórico à noite. Colônia iluminada é outra cidade. Caminhamos, observamos o rio ao longe, vimos Buenos Aíres piscando no horizonte.


























Encerramos este dia longo e leve com mais um sorvete, dessa vez em outra sorveteria, também muito boa.
💡 Dica do Dia 6 — Onde se hospedar em Colônia del Sacramento
Fiquei muito em dúvida entre ficar na Rambla ou ficar perto do Centro Histórico. Depois de viver Colônia com calma, não tenho mais dúvida:
👉 mil vezes ficar perto do Centro Histórico.
Em Colônia, o charme está em:
- fazer tudo a pé
- caminhar de manhã, à tarde e à noite
- ver a cidade dourada no fim do dia
- sair para jantar sem carro
- voltar caminhando tranquilamente
A Rambla oferece um pôr do sol bonito, mas o Centro Histórico entrega experiência.
Menos vista, mais cidade.
Dia 7 — Corpo em ajuste, escolhas conscientes e a história viva da Plaza de Toros
Acordamos por volta das 7h da manhã e mantivemos o plano de fazer a corrida. Voltamos para a Rambla, mas dessa vez ficamos mais próximos do Centro Histórico, sem ir até a parte da praia.
Consegui completar uma corrida de 40 minutos, mas foi sofrida. Estava bastante quente em Colônia e o corpo vinha dando sinais claros de que estava exigindo mais do que deveria. A soma de fatores como mudança de rotina, calor, estresse, carga de treino e também o cansaço natural da viagem pedem redução de ritmo e saber ouvir o corpo é crucial.
Voltamos para o apartamento, tomamos café e decidimos mudar completamente a lógica do dia.
Manhã aproveitada, antes do calor
Ao invés de sair à tarde, quando o calor estava mais intenso, optamos por sair ainda de manhã, por volta das 10h. Me arrumei e fomos, finalmente, visitar o Farol de Colônia del Sacramento.
A vista lá de cima é fantástica; em dias claros, é possível avistar Buenos Aires. Venta bastante, o que deixa o clima muito mais agradável. Meu pai não saiu da cabine interna por conta da vertigem, mas ainda assim aproveitou a experiência.





Depois do farol, seguimos para a Rambla com a ideia de ir até a Plaza de Toros Real de San Carlos antes do almoço. Foi ali que descobrimos que havia visita guiada noturna, e decidimos imediatamente deixar a visita para a noite. A entrada foi 350 pesos por pessoa.
Antes de voltar para casa, passei no Porto de Colônia para levantar informações sobre os passeios de barco:
- Colônia → Montevideo
- Colônia → Buenos Aires
- Buenos Aires → Colônia
Descobri que os preços são bem mais acessíveis do que se imagina:
- cerca de US$ 40–42 por pessoa
- ou US$ 135 com carro
Por alguns minutos, eu e meu pai até cogitamos fazer um bate-volta, mas concluímos que não valeria a pena naquele momento. Seriam apenas seis horas corridas, sem tempo real para aproveitar. Decidimos deixar Buenos Aires para outra viagem.
Voltamos para o apartamento, preparamos o almoço e descansamos até cerca de 16h.
Tarde de praia (sem praia)
No meio da tarde, saímos para a praia. O vento estava forte e o mar bastante agitado. Ficamos cerca de duas horas por ali, mas eu não cheguei a entrar na água. Voltamos para casa, nos arrumamos e nos preparamos para a noite.
Antes de seguir para a Plaza de Toros, voltamos ao Centro Histórico para comprar bocaditos e alfajores, decisão estratégica, já que entendemos que em Punta del Este esses produtos seriam bem mais caros. Aproveitamos também para caminhar, observar restaurantes e sentir o clima da cidade à noite.
Visita noturna à Plaza de Toros: história, abandono e renascimento
Seguimos então para a Plaza de Toros, onde acontecia uma feira gastronômica e de cervejas artesanais. O ambiente estava bastante barulhento, o que me incomodou um pouco. Ainda assim, o tour noturno foi excelente.

A visita guiada custa 350 pesos por pessoa (700 pesos no total) e acontece aos sábados, das 21h às 21h40.
A Plaza de Toros foi construída no início do século XX, inspirada nas arenas espanholas, como parte do projeto turístico de Real de San Carlos, que incluía hotéis, porto e cassino. As touradas, no entanto, foram proibidas no Uruguay pouco tempo depois, o que levou ao abandono completo da estrutura por décadas.
A Plaza de Toros Real de San Carlos foi inaugurada no início do século XX, em 1910, idealizada pelo empresário argentino Nicolás Mihanovich como parte integrante de um grandioso complexo turístico e de lazer em Real de San Carlos, que incluía também um hotel-cassino, frontão de pelota basca, usina elétrica e porto próprio para receber visitantes vindos de Buenos Aires.
Com arquitetura em estilo neomudéjar inspirada nas tradicionais arenas de touros da Espanha, a praça foi construída com estrutura metálica trazida da Grã-Bretanha e tijolos à vista, abrigando arquibancadas para cerca de 10 mil espectadores. No entanto, sua trajetória original foi extremamente breve: após a realização de apenas oito corridas oficiais, o governo uruguayo proibiu as touradas no país em 1912, o que levou ao desuso do espaço e ao abandono completo da estrutura por mais de um século, resultando em um longo processo de deterioração e ruína.
Após décadas de esquecimento, o monumento passou por um amplo projeto de restauração, consolidação estrutural e revitalização entre 2019 e 2021. Hoje, reinventado como um centro cultural, turístico e de espetáculos polivalente, o espaço combina a preservação de sua memória histórica e ruínas arquitetônicas com modernos apoios para eventos, feiras gastronômicas, shows e visitas guiadas.
Apesar do barulho externo da feira, o passeio vale muito a pena. Meu pai teve dificuldade para ouvir algumas explicações, mas depois conversei com ele com calma e expliquei melhor todo o contexto histórico.




















Noite no Centro Histórico
Depois da visita, voltamos mais uma vez ao Centro Histórico. Passamos pelo letreiro de Colônia diversas vezes, pois não é como o de Montevideo, e confesso que não senti a necessidade de “substituir” a memória da primeira viagem.
Encerramos a noite com um jantar no Quitupé. Meu pai pediu um chivito, prato clássico uruguayo, e eu pedi uma pizza, que estava excelente. O restaurante é muito bom. Eu até gostaria de ter ficado do lado de fora, mas estava ventando bastante e eu estava com frio e o ambiente interno estava perfeito.


A cozinha é muita caótica. Observar o funcionamento em um dia agitado é interessante. Até uma pequena discussão entre funcionárias eu presenciei.
Chegamos em casa por volta da meia-noite. Tomamos a decisão consciente de não correr no dia seguinte.
Dia 8 — Despedida de Colônia e chegada a Punta del Este
O Dia 8 foi dia de transição. Nada de exercício, nada de pressa, apenas despedida, estrada e adaptação a um novo ritmo.
Acordamos por volta das 7h da manhã, tomamos café com calma, organizamos todas as coisas e deixamos o apartamento impecável, exatamente como recebemos. Esse cuidado sempre faz parte do meu ritual de encerramento de um lugar: fechar ciclos direito.

Antes de sair, abastecemos mil pesos ainda em Colônia e seguimos então em direção a Punta del Este. A previsão era de cerca de quatro horas de viagem.
Fizemos duas paradas rápidas apenas para banheiro. Já perto de Montevideo, erramos uma entrada: ao invés de seguir para Punta, acabamos entrando na cidade. Tivemos que fazer um contorno cheio de semáforos, o que deixou meu pai bastante irritado. Eu também já estava exausta, sem paciência, querendo apenas chegar. Mesmo com esse desvio, o atraso foi pequeno: chegamos às 14h20, apenas 20 minutos depois do previsto.
Teve ainda um pequeno susto no abono de pedágio para estrangeiros, quando a cancela não liberou o carro. Parei no atendimento, conferi tudo com a atendente e foi apenas um erro de leitura. Tudo certo, seguimos viagem.
Chegando em Punta del Este, tivemos um pouco de dificuldade para localizar o hotel, porque o endereço não tinha numeração clara. O hotel fica de frente para a orla, com uma localização simplesmente excelente:
- a 100 metros da Playa Mansa
- a cerca de 500 metros do Farol
- a 1 km da Playa Brava
- com estacionamento, o que nos tirou qualquer preocupação logística
E o pôr do sol…
Sem exagero: um dos mais bonitos que eu já vi na vida.

O recepcionista nos ajudou com as malas (graças a Deus havia carrinho), subimos e, num primeiro momento, eu confesso que achei o apartamento antigo, com manutenção ruim e dificuldade de encontrar as coisas. Mas respirei, organizei o espaço e aos poucos fomos encontrando tudo o que precisava.
Fizemos uma janta simples, ficamos no apartamento, eu postei algumas coisas no blog e deixei o corpo descansar. O plano agora mudou completamente: Punta será desacelerada.
A ideia era relaxar, tentar entrar no mar para um treino de natação no Uruguay, conhecer Punta Ballena no dia 30, manter os dias 31 e 1º mais tranquilos e retornar ao Brasil no dia 2.

Improvisar também faz parte da viagem
Uma coisa importante dessa fase da viagem: nem o apartamento de Colônia nem o de Punta del Este tinham máquina de lavar roupa. Em Colônia isso não foi um problema pois eram apenas 3 dias. Mas aqui em Punta seriam quatro, cinco dias, e com calor, praia, caminhada e exercício, a roupa acumula.
Peguei um lava-pé, transformei em tanque, coloquei sabão em pó e decidi pelo essencial: tirar o suor das roupas. Não era sujeira pesada, era apenas uso diário. Lavei tudo ali mesmo, estendi como deu, organizei o apartamento e fui, pouco a pouco, me ambientando até me sentir confortável de verdade.
Também reorganizamos os espaços. O apartamento tem duas camas de solteiro no quarto, então deixei o quarto inteiro para o meu pai e fiquei dormindo no sofá. Dormi bem aqui em Punta. Em Colônia, o sofá não era tão confortável e me deu formigamento no corpo, mas nada que comprometesse a experiência.
No fim das contas, todos os apartamentos da viagem foram muito bons. E isso reforça algo que hoje é muito claro para mim:
Prefiro investir em um bom apartamento, bem localizado, com vista, cozinha e boa infraestrutura, do que economizar em algo mal localizado que vai me estressar.
Essa é a minha vibe de viajante hoje.
💡 Dica do Dia 8 — Viagem também é adaptação
Nem sempre a viagem vai ser perfeita ou exatamente como planejado.
Às vezes é preciso:
- improvisar um tanque
- improvisar um varal
- improvisar um utensílio
- mudar planos, passeios e rotas
E tudo bem.
Essa capacidade de improvisar faz a viagem mais leve e nos deixa mais resilientes e flexíveis. No fim, não é sobre conforto absoluto, é sobre se adaptar sem perder o prazer.
Dia 09 — Punta del Este em ritmo de descanso
Esse dia confirmou algo que a gente já vinha sentindo desde a chegada: Punta del Este é sobre desacelerar.
Acordamos cedo. Meu pai saiu para caminhar pela Playa Mansa, enquanto eu fui caminhar com os pés na areia, do meu jeito preferido. A Playa Mansa é caracterizada por suas águas extremamente calmas e mornas, banhadas pelo Rio da Prata na baía de Maldonado. Por ter poucas ondas e quase nenhum repuxo, é o local ideal para banhos tranquilos, descansar à beira-mar e aproveitar o dia sem preocupações com o mar agitado.

Voltamos, tomamos café da manhã com calma, mantendo exatamente o mesmo ritual que já virou padrão na viagem.
Depois do café, por volta das 11h, fomos ao mercado comprar o que faltava para os dias em Punta: ovos, carne e algumas coisas básicas para cozinhar. A ideia aqui era clara desde o início: menos restaurantes, mais comida em casa, mais tempo livre.
Voltamos, almoçamos tranquilos e, por volta das 15h30 / 16h, fomos para a praia. Ficamos pela Playa Mansa, aproveitando sem pressa. Punta não pede grandes planos, pois pede presença.
No fim da tarde, voltamos para o apartamento, tomamos banho, nos arrumamos e fizemos uma janta simples. À noite, decidimos sair para caminhar. Seguimos a pé até a Playa Brava. No mapa parece longe, mas, na prática, em sete minutos caminhando já se chega lá. A localização do nosso hotel é realmente privilegiada.
Caminhamos pela orla da Brava, que oferece um forte contraste em relação à Mansa. Por ser banhada diretamente pelo Oceano Atlântico, a Playa Brava possui mar aberto, ventos mais intensos e ondas bem mais fortes e agitadas, sendo muito procurada por surfistas. É ali que fica a famosa escultura “Los Dedos” (também conhecida como “Homem Emergindo à Vida”), criada pelo artista plástico chileno Mario Irarrázabal em 1982. A obra retrata cinco dedos gigantes emergindo da areia e se tornou um dos maiores cartões-postais do Uruguay.




Na volta, passamos pelo centrinho de Punta e encerramos a noite na tradicionalíssima Heladería El Faro. Fundada em 1942, ela carrega mais de 80 anos de história e tradição na produção de sorvete artesanal de altíssima qualidade. Visitar a El Faro durante um passeio pelo centrinho histórico e comercial de Punta del Este é uma parada quase obrigatória para vivenciar os sabores e o clima clássico da cidade. Sorvete, conversa e a sensação clara de que o corpo finalmente começava a relaxar.


Esse dia deixou evidente o contraste da viagem:
- Montevideo: cidade grande, intensa, cheia de estímulos
- Colônia: histórica, charmosa, caminhável, contemplativa
- Punta del Este: pausa, descanso, mar, rotina simples
Aqui, a viagem entrou em outro modo e era exatamente isso que a gente precisava.
Dia 10 — Mar aberto, Casapueblo e o pôr do sol mais bonito da América Latina
No Dia 10 mantivemos o ritual que virou regra da viagem: acordar cedo para movimentar o corpo. Dessa vez, decidimos trocar a Mansa pela Playa Brava.
Eu caminhei direto na areia, no mar aberto da Brava, belíssimo, intenso e com uma faixa de areia bem maior do que a da Playa Mansa. Meu pai caminhou pela parte asfaltada, onde os carros estacionam, porque a Brava não tem calçadão contínuo como a Mansa. Esse é um detalhe importante: a Brava é oceano aberto, a estrutura diferente, menos “urbana” para caminhadas longas fora da areia.



Depois da caminhada, voltamos, tomamos café da manhã e decidimos aproveitar a manhã para sol e mar, ficando por ali até o meio-dia. O plano do dia era claro: Casapueblo em Punta Ballena.
Almoçamos e, por volta das 15h30, seguimos para o Casapueblo.
Casapueblo: história, arte e arquitetura orgânica
Idealizada pelo renomado artista plástico uruguayo Carlos Páez Vilaró (1923–2014), a Casapueblo começou a ser construída em 1958 originalmente como uma modesta casa de madeira e ateliê de verão. Ao longo de 36 anos de trabalho ininterrupto e sem a utilização de plantas arquitetônicas formais, o complexo expandiu-se de forma orgânica e espontânea pelas encostas rochosas de Punta Ballena, transformando-se em uma obra-prima viva que abrange 13 andares em patamares.

A arquitetura de traços mediterrâneos inspira-se nos ninhos dos passarinhos joão-de-barro uruguaios e na estética da ilha grega de Santorini. Vilaró moldou manualmente as paredes brancas de alvenaria e cimento, deliberadamente evitando linhas retas ou ângulos retos. Cada corredor, terraço, torre e janela possui contornos arredondados e assimétricos, perfeitamente integrados ao relevo acidentado das falésias de frente para o estuário do Prata.
Atualmente, o complexo abriga o Museu-Ateliê Carlos Páez Vilaró, onde estão expostas pinturas, esculturas, cerâmicas, tapeçarias e documentos históricos sobre a vida do artista e a busca por seu filho, Carlos Páez Rodríguez, um dos sobreviventes da tragédia dos Andes em 1972. O local conta ainda com uma galeria de arte, hotel, restaurante (Taberna del Agó) e uma homenagem poética diária ao pôr do sol transmitida pelos alto-falantes da estrutura.
A visita custa 600 pesos por pessoa na alta temporada (500 pesos para maiores de 65 anos). Estava muito quente, com calor intenso, sol forte e muita luminosidade refletida pelo mar. Ainda assim, percorremos todo o museu com calma, fizemos fotos e vídeos e ficamos cerca de duas horas no local.


























Aqui vai um aprendizado importante:
- Quem não pretende assistir à cerimônia do pôr do sol, deve ir de manhã. É menos quente, mais vazio e rende fotos melhores.
- Nós fomos à tarde porque queríamos o pôr do sol em Punta Ballena, e isso fez o museu ficar mais cheio conforme o horário avançava.
Mesmo assim, a experiência vale muito a pena. A Casapueblo foi criada pelo artista uruguayo Carlos Páez Vilaró, construída de forma orgânica, quase escultórica, como se tivesse “nascido” da própria paisagem. Não há linhas retas rígidas: tudo é curva, branco, luz e integração com o entorno. É casa, ateliê, museu e mirante, tudo ao mesmo tempo.
A península de Punta Ballena é uma proeminente formação rochosa de falésias e vegetação nativa que avança sobre as águas onde o Rio da Prata se encontra com o Oceano Atlântico. Seu nome deriva da silhueta da escarpa vista à distância, que se assemelha ao dorso de uma baleia emergindo da água, assim como do histórico avistamento de baleias-francas-do-sul na costa durante a temporada de migração.
O paisagismo e a infraestrutura da região foram amplamente desenvolvidos a partir da década de 1940 pelo empresário Antonio Lussich, idealizador do vizinho Arboreto Lussich (uma das maiores florestas artificiais introduzidas do mundo). A rota cênica da Ruta Panorámica percorre a crista do monte rochoso, oferecendo mirantes naturais incomparáveis para o arco da baía de Maldonado, a silhueta urbana de Punta del Este e a vastidão do horizonte aquático.
Punta Ballena: o pôr do sol definitivo
Por volta das 18h, saímos do museu e seguimos para ponta de Punta Ballena. Caminhamos pelas pedras, nos abrigamos do vento e esperamos.






E aí… o espetáculo.
Sem exagero: o pôr do sol mais bonito que eu já vi na América Latina. A luz muda de forma contínua, o céu se transforma e o mar reflete uma luz sem igual. É um daqueles momentos em que o tempo parece desacelerar por completo.

Se puder, minha recomendação é:
- um dia para a Casapueblo
- outro dia só para o pôr do sol em Punta Ballena
Nós juntamos os dois, e deu certo, mas, se houver tempo, separar deixa a experiência ainda mais plena.









Voltamos para o hotel por volta das 20h. Tomamos banho, preparei uma omelete simples e deliciosa (ovos, queijo e tomatinhos) e encerramos o dia com descanso. O corpo estava cansado, mas a cabeça, em paz.
💡 Dica do Dia 10 — Brava, Casapueblo e horários certos
- Playa Brava é linda, mas menos prática para caminhadas fora da areia (não tem calçadão como a Mansa).
- Casapueblo:
- manhã = menos calor e menos gente
tarde = mais cheio por causa da cerimônia do pôr do sol
- manhã = menos calor e menos gente
- Punta Ballena é imperdível. Se der, reserve um dia só para o pôr do sol.
Alguns lugares não pedem pressa, pedem presença.
Dia 11 — Ritmo reencontrado, mar imprevisível e a virada do ano em Punta
O Dia 11 começou com uma decisão importante: ouvir o corpo.
Meu relógio vinha sinalizando overtraining desde as corridas em Montevideo e Colônia, então a ideia inicial em Punta era desacelerar, caminhar mais e correr menos. Ainda assim, decidi tentar, e valeu muito a pena.
Fiz uma corrida leve, encaixada, sem forçar. Foi a primeira corrida realmente boa de toda a viagem. O treino saiu como produtivo, o corpo respondeu bem e senti que, finalmente, o ritmo tinha se ajustado. Um alívio físico e mental.



Depois do exercício, voltamos para o hotel, tomamos café da manhã com calma e seguimos para a praia. A água estava super limpa, e o momento foi de puro descanso. Punta, nesse ponto da viagem, já tinha cumprido seu papel: desacelerar.
Voltamos, almoçamos e saímos para resolver uma missão simples e simbólica: comprar ímãs de geladeira e algumas lembranças. Fomos até a loja Montoy, a mesma onde comprei lembranças cinco anos atrás. Queria comprar a mesma xícara que já tive — uma ficou em Florianópolis, a outra em Santa Maria (que acabou quebrando). O modelo já não existia mais. Gosto de colecionar pequenos objetos de viagem, e esse ritual faz parte do encerramento de cada lugar.
O calor estava intenso, muito quente mesmo. Antes de seguir adiante, voltamos à Heladería El Faro para o último sorvete do ano. Um jeito simples e bonito de nos despedirmos de 2025.
Depois disso, voltamos ao hotel, pegamos as coisas e fomos novamente para a praia.
Um mar que muda tudo
No fim da tarde, tivemos uma surpresa nada agradável: o mar da Playa Mansa estava muito sujo, com algas e vários peixes mortos na orla. Provavelmente consequência das algas acumuladas nos dias anteriores. Não estava convidativo para banho, nem visualmente e nem pelo cheiro.
Ainda assim, ficamos. O pôr do sol estava bonito, o calor seguia intenso e o momento pedia presença, não perfeição.

Voltamos por volta das 20h, tomamos banho e começamos a nos preparar para a virada do ano.
Réveillon em Punta del Este
Fizemos uma ceia simples e deliciosa: carne de porco e panetone. Nada sofisticado, exatamente como queríamos.
E então vieram os fogos.

Um detalhe importante de Punta (e do Uruguay): eles ainda não aderiram aos fogos sem som. É barulho, é fumaça, é intensidade. E aqui, isso faz parte da celebração.
Estávamos numa localização estratégica, no Vanguardia, com vista direta para:
- os fogos da orla
- os fogos no mar
- os fogos do porto
Foi um espetáculo completo. A cidade inteira parecia pulsar. As pessoas ficaram na rua até perto das três da manhã, celebrando, conversando, vivendo a virada.




Foi uma virada muito diferente da que tivemos em Foz do Iguaçu no ano anterior, que foi muito mais tranquila. Aqui, Punta mostrou seu lado festivo, vibrante e intenso. O uruguayo gosta de Réveillon, gosta de praia, gosta de celebrar e isso ficou muito claro.

Esse foi o último dia do ano: com corrida boa, calor intenso, mar imprevisível, rituais simples e uma virada cheia de luz, barulho e vida.
Dia 12 — Último dia em Punta, despedidas suaves e o gosto de “queria mais”
O Dia 12 começou diferente. Depois da noite de Réveillon, acordei sem vontade nenhuma de fazer atividade física. Champanhe e corrida definitivamente não combinam, e eu respeitei isso.
Acordamos por volta das 8h, tomamos café da manhã com calma e seguimos o ritmo mais preguiçoso que o dia pedia. Fiquei algum tempo organizando coisas no apartamento, mexendo em detalhes, deixando tudo organizado.
Depois disso, fomos para a Playa Mansa. Um começo de ano simples, sem pressa, só sentindo o sol, o calor e o corpo mais pesado. Voltamos para o apartamento, fizemos o almoço e, mais tarde, decidimos sair novamente.

Dessa vez fomos para a Playa Brava. Ficamos lá das três e meia até perto das cinco e vinte da tarde. O contraste entre as duas praias sempre me chama atenção: a Mansa acolhe, a Brava impõe presença. Foi um bom jeito de fechar os dias de mar.






Na volta, passamos em um Fresh Market para comprar pão — era basicamente a única coisa que tinha acabado. Aproveitamos para gastar o restinho do dinheiro que ainda tínhamos em espécie.
Voltamos para o apartamento, tomamos banho e começamos a organizar tudo para a viagem de retorno, que seria longa no dia seguinte. Arrumar mala no último dia sempre tem um clima diferente: mistura de cansaço, gratidão e aquela sensação de que ainda não era hora de voltar.
À noite, jantamos algo simples e decidimos dar uma última volta a pé. Eu até queria caminhar mais, esticar o momento, mas fizemos uma caminhada curta. Paramos para tomar um sorvete, porque, de algum jeito, sorvete virou um ritual dessa viagem, e voltamos.
Meu pai foi dormir cedo. Ele iria dirigir e precisava descansar. Eu fiquei acordada um pouco mais, finalizando coisas, pensando, sentindo.
Não queria que a viagem acabasse mas, ao mesmo tempo, sei que ela foi exatamente do tamanho que precisava ser.

Dia 13 — Estrada longa, despedida de Punta e chegada em casa
Acordamos por volta das 6h da manhã, chamei meu pai e preparei o café. Tomamos café com calma, organizamos todas as coisas e fizemos a revisão final do apartamento. Consegui tomar uma ducha rápida, arrumar tudo e, por volta das 8h, estávamos prontos para sair.
Estava chovendo. Meu pai fez a volta com o carro, da frente para os fundos do prédio, para facilitar o carregamento. Colocamos tudo no carro, entreguei a chave e, antes de pegar a estrada de vez, sugeri dar uma última volta pela orla, perto do farol, para nos despedirmos de Punta.

Seguimos primeiro por um trajeto interno da cidade, mas mudei a rota para ir pela orla. A escolha valeu a pena. Passamos pelo Farol e por uma região de casarões enormes, mansões impressionantes, aquelas casas milionárias que sempre despertam curiosidade. Meu pai ficou visivelmente feliz com esse trecho, pois ele queria muito ver a região nobre de Punta.
Depois disso, seguimos viagem em direção ao Chuí. No caminho, uma estrada bastante movimentada: muitos carros, ônibus, retorno intenso de fim de temporada. No Chuí, paramos para almoçar, onde aproveitamos um espeto corrido muito bom, que caiu como um respiro no meio da jornada.



Após o almoço, seguimos por Pelotas, Rio Grande e, então, rumo a Santa Maria. Chegamos por volta das 20h. No total, foram cerca de 12 horas de viagem.
O cansaço bateu forte. Tomamos banho, comemos algo simples e fomos deitar. Eu ainda demorei para dormir, pois fui pegar no sono só perto das 23h. O corpo estava dolorido, especialmente porque, ao longo de quase dez dias no Uruguay, dormia basicamente em sofás. A adaptação cobrou seu preço no fim.
Mesmo assim, chegamos bem. A estrada estava pesada, mas deu tudo certo.
Viagem concluída, casa alcançada e ciclo fechado.
Nossa road trip chegava ao fim com o sentimento de missão cumprida e o desejo de decidir qual o próximo destino que faremos juntos.
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